Cicero Melo - Os poetas explodem!


18-05-2012


TRÊS POEMAS DE UBIRAJARA MELLO DE ALMEIDA

 

VERBO

 

As palavras são folhas que caem

Da árvore do silêncio

E o silêncio é o alimento do sonho

Que brota no cio da imaginação.

 

Palavra:

Rio de silêncio

Que desemboca

Em minh’alma

E se curva

Sobre o corpo

Para aplacar

O delírio da invenção.

 

EPITÁFIOS

 

A vida se foi  num pé e voltou noutro,

Como o vento bêbado perfuma os dias

do tolo que sobrevive feito um potro

nessa única  matéria de formas vazias.

 

Se foi o homem de olhos cansados

Para a caixa do próximo descarne

Sobre a lápide  dos corpos pesados

Quando separam os ossos da carne.

 

Se foi aquele que sentiu desejos

Não de amor mas de todas feridas

No corpanzil chagado sem pejos

Que se uniam às sobras moídas.

 

Se foi o homem que não teve nome

Como bicho esfolado no asfalto

Quando a morte é metade da fome

A outra, vem traçada no alto.

 

Se foi o que perdeu nem teve vida,

Seus bens era uma velha carroça

Que servia de escrava e guarida

Onde empestava um cheiro de fossa.

 

 

 

BECO DA FANTASIA

 

 

No bar a mesa é um sonho

Com todas cadeiras de vidro

No gótico céu que suponho

Oculto nas folhas de um livro.

 

Despido o olhar do pudor

Levanta-se o véu gracioso

Onde vagueia o amor

Com cínico ar de esposo.

 

As vozes já quase bêbadas

Florescem no azul certas cores

Cerzidas nas labaredas

A queimar nos seus alvores.

 

A noite traz no desejo

O copo que se evapora

No bordado de um beijo

Tecido na mesma hora.

 

Em cada gesto escorrega

Uma parte do prazer

Na face tua dor é cega

Mas sabe tudo que ver.

 

Branca a espuma flutua

No fogo de cada paixão

No corpo que é meia-lua

No grito de gelo no chão.

 

 

Escrito por Cicero Melo às 07:10 PM
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