Cicero Melo - Os poetas explodem!


16-11-2011


SEIS POEMAS DE PEDRO DU BOIS

1. AGORA E DEPOIS
 
Depois a destreza
com que travo a mão
na hora do ataque:
 
       gesto comedido
       imensurável
       duradouro
       com que a mão
       alcança o alvo
       e se detém
       em incomum
       reconhecimento
 
agora guardo o nascer da estrela
fria da descoberta: encerro
a hora da promessa em espaço
trespassado em dores
 
                na destreza tenho
                a imagem deslocada.
 
 
2. DANÇAR
 
O corpo imobilizado
aguarda o instante
em que a música
incita à dança
 
dança suavemente
e o corpo reconhece
o gesto preso na garganta
 
sonha o tempo
exato da lembrança: segue
a dança
 
     soa seu corpo
     ao solo
 
mobiliza forças
e as distribui
sem arrependimento.
 
 
3. SENTIR
 
Com o sentido
        inicial: reponho as mãos à cabeça
                  em entrega
 
   (lembro o tempo de afastadas imagens
    recorrentes no presente)
 
                   em condenação
                   em execução
 
  como rezam contratos
  em pétreas cláusulas:
 
   ao destino esclareço o texto
   sentido na entrega.
 
 
4. LAGOS
 
A água esverdeada do lago
entre árvores não reflete
o ocaso do lodo
no fundo
 
- imprime no pingo da chuva
o centro concêntrico
da queda -
 
o pássaro entre árvores
protegido trina
meus ouvidos
 
(a voz da criança no ambiente
 fechado do apartamento
 grita sucessiva vontade
 de liberdade)
 
a chuva altera a superfície
e o lago calado em trinados
e gritos
afoga sua profundeza.
 
 
5. SERMOS
 
Profanamos guerras:
santificadas epopéias
desnudadas em carnificinas
 
julgamos a morte
na redenção do corpo
de vida extinta
em seca fonte
 
informamos o estrondo
não ouvido em conversas
 
brilhamos ectoplasmas
nos espaços vazios
da inconsequência
 
fechamos a porta e em nada
amortecemos farsas decoradas.
 
 
6. COMO SERIA
 
Não fosse a chuva
em eterno retorno
   (eterno: a suavidade da volta
    se faz água translúcida
    na impossibilidade da fuga)
 
a terra seca ao contato
se desfaz em poeira cósmica
               (cósmica: a visão anterior do espaço
                percebido em distâncias alheias
                ao corpo não fragmentado)
 
arremessada ao espaço
desprovido da atmosfera
dos viveres
       (viveres: o plural acentua a ideia
        do pensamento externo da vaidade)
 
como excelência e inútil arroubo
por sermos livres
      (livres: a horizontalidade do arremesso
       diagramado da espécie afeita
       em saltos de entendimento).
 

Escrito por Cicero Melo às 04:58 PM
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