Cicero Melo - Os poetas explodem!


10-11-2011


DOIS SONETOS DE THEO DRUMMOND

 

ASSIM SOU EU

 

Eu sou sozinho, e minha companhia

Eu mesmo sou, por isso vivo triste.

Isso tu não percebes: cada dia

Me afundo mais naquilo que não viste.

 

Esta tristeza me acompanha e insiste

Fazer da minha vida esta agonia.

Não sei por quanto tempo ela resiste:

Olho ao redor e a casa está vazia.

 

Tu não percebes quanto o não estares

Sempre comigo me magoa e é dor

Que faz doer demais meu coração.

 

O que posso fazer com meus penares

É apenas prosseguir com meu amor,

Na espera de algum dia tu voltares

 

 

ACONTECIMENTO

 

O cão latiu para acordar seu dono

Que deitado num banco do jardim

Parecia dormir um longo sono,

Desses que não parecem ter um fim.

 

A praça era um espelho do abandono:

Moradia dos dois vivendo assim,

Vendo o tempo passar, inverno, outono,

Sem procurar lugar melhor, enfim.

 

Uma velha senhora que trazia

àquela mesma hora, todo dia,

um prato de comida para os dois,

 

Ao chegar estranhou que o seu gemido

Era cheio de dor: logo depois,

Viu que o dono do cão tinha morrido.


Escrito por Cicero Melo às 05:17 PM
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08-11-2011


SETE POEMAS DE ANTONIO DE CAMPOS

ENCONTRO DE SAFO COM AS MUSAS EM LESBOS

 

Safo aguarda as Musas

pra um encontro

 

Que palavras não se dirão?

 

Os versos subirão

do mais íntimo,

existirão tão visíveis, claros,

que Safo os apalpará

 

Vinde a mim,

remota feminista

e inspiradoras de gregos,

como o tempo de amar:

 

em silêncio

 

E nossos dias serão iguais

a um poema –

pra sempre!

 

HAI-KAI DO PODER POPULAR OU POEMA ESCRITO EM MIM

 

                                 transmitido por uma voz suave

 

Três homens

de mãos dadas

têm a largura dum rio.

 

BALADA PRA JOHN LENNON

 

As luzes de Nova Iorque, ao apagar

de teu coração, perderam a cor do filamento.

Manhattan, uma terra de lágrimas, agora.

Mas o pássaro canta: He’s only sleeping!*

 

Muitas são as maneiras de se matar um homem,

a morte é que é uma só. Se difícil

madeira e cravos, fácil um buquê de balas.

Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

 

Quatro balas quentes como a rosa

acesa de Hiroshima, quatro cordas partidas,

quatro punhaladas de chumbo.

Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

 

O inverno chegou mais frio

e a neve sobre o teu corpo é negra

como a pele dos que no Harlem te pranteiam.

Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

 

Não mais verão teus olhos puros de criança,

parados num pedaço qualquer do céu da cidade

e com a infinita impossibilidade de chorar outra vez.

Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

 

Por mim irias com aquele terno branco

e um punhado de vento em teus cabelos,

mas isso nada vale pra ressuscitar canções em tua boca.

E o pássaro canta mais alto que nunca: He’s only sleeping!

 

Ele apenas dorme!

 

UMA FOLHA PRA WHITMAN

 

Ah, Whitman, estranho como um ano depois

tu virias, suave enfermeiro,

em meu socorro.

Aos desafortunados levavas medicamentos,

a mim me chegaste com uma folha de tua relva:

 

aquela em que dizes ter visto em Luisiana

um carvalho crescendo. Nunca estive em Luisiana,

jamais vi um carvalho,

mesmo a crescer sozinho.

 

Contudo, também me senti com saudades,

quando num bairro proletário,

longe de casa,

contemplei uma cajazeira de cujo galho

dois rebentos desafiavam o mundo.

 

Os dois eram tenros e um mais que o outro.

Um era mais crescido e o outro o acompanhava

em crescimento.

Não conheceste uma cajazeira,

como ignoro as feições dum carvalho.

 

Porém sabemos que são árvores vivas

e por serem vivas,

nos ensinaram.

 

Que coisa, Whitman, sentirmos que ao vê-las,

pensamos em nós, porque nos outros:

tu em teus companheiros

sem os quais não podias viver

como vivia aquele carvalho triste, solitário.

 

E eu me tomando por uma cajazeira,

via em seus tenros rebentos

meus filhos distantes.

 

Tuas alvas barbas não as tive ao pé,

mas que tem isso a ver se te conheço irmão

e a lição dos Homens

aprendemos com as árvores?

 

Se abro o teu livro, já não estou só:

eu sou teu companheiro em outro hemisfério!

 

 

ALMIRANTE E GAJEIRO À ESPERA

 

Engalanado Almirante,

olhos firmados adiante,

não vejo terras d’Espanha,

só esta angústia tamanha.

 

Gajeiro do mais alto,

olho o mar em sobressalto,

e nada de Portugal,

só esta tristeza habitual.

 

Almirante e gajeiro,

olho e ordenando vou,

e não vêem meus olhos

o que vendo estou.

 

São outras terras que vejo,

não restos, não sobejos,

nem Guadalquivir, nem Tejo –

o que vejo não há de vir.

 

SOLIDARIEDADE

 

Canto as armas e o homem,

assim começa a Eneida.

Canto o homem e suas armas,

trova Aragon.

 

Eu canto o homem sem armas,

canto a arma que o tempo não muda:

saúdo o Sonho

e bebo ao Ideal.

 

Canto os campônios:

o que da baioneta fez arado

e esperou ansioso

as sementes brotarem,

 

como o que fecundando

o campo arado duma mulher,

sentiu o crescimento

da agricultura semeada.

 

Quando os homens

não mais precisarem de defesa,

uns aos outros eles próprios dirão:

Só cantamos nossa humanidade!

 

Eu canto o homem

sem armas. A mais humilde bala,

eu não canto, não!

 

 

SIM, VOCÊS PODEM!

 

a América... em tempos futuros revelará sua

importância histórica, talvez numa guerra

entre a América do Norte e a América do Sul

 

Hegel

 

Sim,

vocês podem

 

fazer a neve

em Nova Iorque

cair como pétalas

de cor rosa-choque

 

Sim,

vocês podem,

 

num buraco raso

dum verde

campo de golf,

 

transformar

a profunda

depressão

 

Vocês

só não podem

 

é mudar

as penas da águia

nas doces penas

de meu azulão!


Escrito por Cicero Melo às 06:39 PM
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TRÊS POEMAS DE SAMUCA SANTOS

acordar é ter saída?

 

labirinto de espelhos

e borges no meu juízo

biblioteca só de livros

paredes livros sem teto

:oh ícaro

podes ver o céu

mas não podes voar

 

nem braile nem audiobooks

perdido em mim

no way out, diz o corvo

atirando a esmo

:poe! poe! poe!

 

acordo encharcado de suor

dante me recebe

com um sorriso escroto

e o inferno

é feito de círculos

gangorras ciclos espirais

 

...

república de olinda

16.03.11

 

---

(dez)ilusões

 

não quero a menina

não saberia o que fazer com ela

também não sei onde foi se esconder

nos corredores de outrora

tenho certeza que não

 

queria a promessa dos seios

no corpinho leve

a boca que não sabia beijar

e toda a precocidade do pensamento

em formação

: a menina tinha atitude

e era tudo o que eu quis

 

mas também não sei se quero

a mulher com seus problemas

adultos, somos absurdos

e não nos encontraremos nunca

 

república de olinda

1º.03.11

 

---

poema em crise

 

refém do dia-a-dia

e suas miudezas

incerto é o porto

da criação

 

hoje um desejo

depois um poema

ou um acidente

:sonho

que não vira projeto

massa fodida

e o que restou 

do cimento

,lama?

 

...

república de olinda

21.03.11


Escrito por Cicero Melo às 06:20 PM
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UM POEMA PARA CICERO MELO

 

ÓRFICO

 

        Inaldo Cavalcanti

 

A teologia aprende contigo.

 

Os pássaros voam,

Aprendem contigo.

 

Os anjos, em greve,

Aprendem contigo.

 

O inferno, chamado palavra,

Aprende contigo.

 

A dor, prova ou castigo,

Tumor da esperança,

Aprende contigo.

 

Bailarina louca de cisne

Aprende contigo.

 

Totem maior da Aurora.

 

 

Escrito por Cicero Melo às 05:53 PM
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05-11-2011


BRUXELAS

 

Domingos Alexandre

 

A Esman Dias

 

Escurecia e o dia era tão frio

que cada rua era um desvão sombrio

e nossos passos pelo calçamento

num compasso de mudo desalento

soavam como fuga para o Eterno

ante o cerco sem fim daquele inverno.

As pessoas envoltas em seus mantos

passavam numa profusão de espantos

perdendo-se, de vez, por trás dos muros

em busca de lugares mais seguros

e o céu baixava com indiferença

a nublada carranca. A noite imensa

sem coorte de estrelas e sem lua

caía bruscamente sobre a rua.

E eu seguia sem rumo e sem saída

na noite que inundava minha vida.

 

Sob os arcos de um velho monumento

gemia um vagabundo sonolento

e o vento uivando para todo lado

passava como um lobo esfomeado.

Naquela noite minha solidão

se arrastava ao meu lado como um cão

que embora exposto à dor e ao abandono

se recusava a abandonar o dono.

E eu, desterrado e, ali, vagando a esmo,

carregando esse espectro de mim mesmo,

caminhava sob a garoa fria

que doía nos ossos e feria

com as pontas dos dedos o meu rosto

aumentando-me a chaga do desgosto

numa Bruxelas para sempre hostil,

a centenas de léguas do Brasil.

 

Há um momento em que, longe de casa,

o homem pensa em tudo que lhe abrasa

o coração, repensa toda a vida

e vê como cresceu sua ferida,

como tudo fugiu e quase nada

lhe resta do que amealhou na estrada,

vê como até o amor naquela hora

é só lembrança do que foi, outrora,

o verde imaculado da esperança;

é poeira dos passos de uma dança,

que há muito se acabou e no salão

deixou apenas ecos da canção.

Percebe, então, que em cima de tudo isso

a noite tomba no auge do seu viço

lançando um gosto amargo de derrota

nessa vida que aos poucos se desbota.

Mas não pode fugir: o tempo é escasso

( a morte nos espreita a cada passo)

e essa mesma Bruxelas que o assedia

é toda sua vida fugidia,

tudo que ele viveu ou não viveu

e para sempre, agora, se perdeu.

Vê que a dor é sem fim e que no mundo

nos envolve segundo por segundo.

Mesmo assim ele arrosta a chuva fria

de uma cidade estúpida e sombria

desemborca seu barco, enfuna as velas

e se perde na noite de Bruxelas.


 

Escrito por Cicero Melo às 08:30 PM
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SEIS POEMAS DE DELASNIEVE DASPET

 

E agora ?

 

Rasgo os poemas,

Renego as lágrimas,

Mato a dor..

.

Fino pó

Cobre a memória

Como um raio de luar.

DD_Campo Grande-MS, 12.01.11

 

Aridez

 

Nas areias que se agitam

Na mudança das dunas

O prenúncio da tempestade.

Grãos que queimam

No tempo tão incerto,

Oásis infecundo de lágrimas.

Nas estrelas noturnas,

O brilho seco se destaca...

No silêncio do deserto

É árido o teu olhar.

DD _ Campo Grande, 05.01.11

 

Não entendo...

 

Olho-me..

Procuro entender-me.

Do lado de fora miro o meu avesso,

Quero ver o que nunca vi,

O que não entendo

Do meu outro lado!

DD_Campo Grande-MS, 09.01.11

 

Longitudinal

 

Disponho meu corpo

Em sentido longitudinal...

Faça o corte

De cima, abaixo,

Diga-me, ainda sou eu ?

Rasga-me a pele,

Abra-me...

Procuro-me...

Já não me reconheço!...

DD – Campo Grande, 06.01.11

 

Sinestesia

 

Fecho os olhos atentos,

Tua imagem surge em minha mente.

Devagar, torna-se brilhante...

Toma conta, preenche os vazios!

Ouço tua voz, na imaginação.

Teu riso, cristalino, é agradável;

Tua lembrança é quente, macia, suave.

Fraca aragem,

Saia de minha mente,

Faze-te presente...

DD_Campo Grande, 22.03.11

 

Loucura

 

Ouço-te!

Tua voz são melodias de Pã...

Te celebro...

Sou tua sofista.

Quem melhor do que eu para

Pintar-me como sou?

Quem melhor do que eu para exaltar

A loucura que me envolve?

Quem, a não ser eu, falaria de mim,

Pintando-me em palavras?

DD_Campo Grande-MS, 24.06.11.

Escrito por Cicero Melo às 07:42 PM
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REI MORTO

Domingos Alexandre

             

              Em memória de Muammard Kadafi

 

Entre chacais enfurecidos

Eis o velho tirano agora nu e sem rosto.

Apenas um cadáver que navega

Sem rumo certo em meio à multidão.

 

Enquanto chutavam os seus flancos

Lambeu as mãos que lhe batiam na face

E ouviu os gritos de sarcasmo

Dos que, tomando-o pelo braço,

Untaram-no com sangue

E o lançaram por terra sem perdão.

 

Repousa agora só, numa trilha de escarros

Sob o céu de verão que o espia calado,

Abandonado e morto como um rei desvalido,

Desamparado e sujo como um cão.

 

Escrito por Cicero Melo às 06:08 PM
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