Cicero Melo - Os poetas explodem!


19-03-2011


DEZ SONETOS DE MÁRCIA SANCHEZ LUZ

Lua Negra

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Amo demais que até ferida brota
na cálida, escondida lua negra
dos meus delírios (dor que desintegra
calma desnuda em chuva de gaivota).

Os olhos choram mares, geram grotas,
fabricam densa nuvem que se integra
ao corpo equivocado pela entrega
sofrida num adeus desfeito em gotas.

Amo demais, eu sei, mas o que faço
se de outro jeito não conheço o amor?
A minha sina é nunca combater

o que me atrai e gera descompasso.
Se por um lado existe o dissabor,
tenho da vida a flor que vi nascer.


O amor no sonho

 

© Márcia Sanchez Luz

 

O amor é tão perfeito quando durmo,

que mal me dá vontade de acordar!

Mas não tem jeito – o dia vem soturno

e o sonho acaba. É duro acreditar.

 

O amor no sonho é como o deus Saturno,

num farto, afoito e intenso festejar;

o adeus ao laço – algoz e taciturno –

que avilta, agride e evita o libertar.

 

O amor de sonho é sempre um aconchego;

permite ao colibri (que não descansa)

um beijo à flor que finge desapego.

 

Amor assim é sábado constante;

acalma o que guardado a dor alcança

e afasta a realidade lancinante.

 

 

Infinda Solidão

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Por quem me tomas quando o amor que sinto
da carne dista, é sensação do peito?
O anseio que me assola é puro instinto
guardado no sonhar sem preconceito.

Por quem me tomas neste labirinto
de dor e medo e cheio de defeito?
O meu sentir não pode ser extinto
por conta de um conflito sem efeito.

Por ora busco alguma direção
para aquietar-me a mente tão doída
que só concebe o que não tem razão.

Se eu não achar porém explicação
passível de curar esta ferida,
me entregarei somente à solidão.

 

 

Escrever

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Escrever é sorver a dor aos poucos,

é contar a si próprio o que bem sabe,

mas que aflige demais! Por ser tão louco,

faz que a alma, em torpor, logo desabe.

 

É cruel falar sobre o que machuca!

Mais cruel, entretanto, é não sentir

o que a vida oferece: pura luta

entre o ser complacente e o insurgir.

 

Se escrever é dar forma a certa ausência

na calada da noite ou mesmo dia,

vou seguir exaurindo a desavença.

 

Eis portanto o que faz a diferença

entre aquele que vive e contagia

e o que não sente a vida assim intensa.

 

 

Vida

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Se digo que pra tudo há recomeço

e que a tristeza um dia se desfaz,

é porque o inverno, triste cinza-espesso,

a luz da primavera em si já traz.

 

Se calo-me e da dor não me despeço

e não censuro o sonho (que é fugaz),

é porque guardo a noite em mim, confesso,

pois nela eu sinto que sou mais capaz.

 

Fico em silêncio em meio aos meus segredos

enquanto a lua se despede aos poucos

e dá lugar ao sol e seus enredos.

 

Pairam no ar sementes de verão!

E verdejantes são as suas folhas,

valentes como o dom da floração!

 

 

Cicatrizes

 

© Márcia Sanchez Luz

 

O que foi dito, amor, já está guardado,

virou história que magoa em vão.

E se as palavras voam, na emoção

meu coração pranteia, amargurado.   

 

O que ficou no meu sentir gravado

é pensamento em plena ebulição

que nem por força, nem por ablação

consegue reduzir o desagrado.

 

Pr’o que foi dito não há mais remédio,

pois que o elixir que abranda não demove

o mal que me causaste - que agonia!

 

E se o perdão aliviasse o tédio

que sinto (mesmo que da dor só prove)

estejas certo, é tudo o que eu faria!

 

 

Ser mãe...

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Ser mãe é ser alguém que na alvorada

bendiz o brilho que anuncia o dia

trazendo a luz do sol em sintonia

com o burburinho de uma passarada.

Ser mãe é ser a doce madrugada

que põe um fim à mágoa doentia;

é ser também a força da magia

curando a febre que se faz calada.

Ser mãe é buscar sempre uma saída

para acalmar o coração inquieto

do filho que se fecha em seu afeto.

Ser mãe é estar atenta para a vida,

é ver além do amor que não deu certo,

fazendo de sua cria um ser liberto.

 

 

Poeta 

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Sou da palavra a chama que descreve    

e alisa e abraça as causas mais diversas.

Se for de outrem a dor que não prescreve,

faço-lhe minha amante mesmo em trevas.

 

Se acaso o sopro me lançar à verve

de uma cantiga envolta em densas névoas,

deixo a cadência se verter bem breve

e transformar em flor dores primevas.

 

Mas se no equívoco da fantasia

eu acordar de um sonho desvalido,

não vou chorar – conheço a ventania!  

 

Sei que adiante a luz que outrora havia

vai ressurgir até no amor premido

por uma febre ardendo em demasia.

 

 

Contradança

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Sou feito a bailarina que descansa,
entregue após a valsa que entristece
e que a faz, sorrateira em esperanças,
refrear o desejo que emudece.

Tão pouco sei de mim e de você!
(Do riso pulsa a veia latejante)
O espelho em que me vejo é tão clichê!
Reflete até o espaço itinerante!

Assim, quando acordar da contradança,
aguardarei o olhar que me envaidece
e que me faz corar e me enternece.

E entardecendo a dor que não fenece
meus olhos, de cansaço, vão se unir.
À espera, movimento não padece.

 

 

Seixos Transparentes

 

© Márcia Sanchez Luz

 

De tanto amor e dor que a ti concedo
meu corpo de minha alma se liberta.
O amor não tem remorsos nem avessos
A dor, porém, fulmina e não me alerta.

É sôfrega a palavra que me invade
em trajes tão secretos e prementes!
Melhor seria a dor em seu contraste
vertendo a seiva em seixos transparentes.

Viver em ti não pode ser promessa
de noite entristecida alvorecer
e nem apaga a dor que em mim professa.

Assim transcendo a busca que não cessa
e a brisa flamejante vem trazer
o aroma do pulsar que me interessa.

 

...

 

Márcia Sanchez Luz

Natural de São Paulo, capital. Publicou pela Ed. Protexto:

. Quero-te ao som do silêncio!
. Porões Duendes
. No Verde dos Teus Olhos

 

Escrito por Cicero Melo às 06:03 PM
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