Cicero Melo - Os poetas explodem!


06-09-2010


Entrevista: Cida Pedrosa


Cida Pedrosa (Foto: Tuca Siqueira/ Divulgação)

DA MULHER
Em entrevista, escritora Cida Pedrosa fala sobre literatura da década de 80 e o seu próprio redescobrimento
Por Paulo Floro

A poeta Cida Pedrosa é remanescente de um tempo onde ainda se podia encontrar relevância num movimento poético dentro da Literatura Brasileira. Mesmo que seu Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco, do qual foi expoente não tenha alcançado holofotes em outras capitais do País, ainda hoje é lembrado na história da poesia brasileira.

Vanguardista e militante, Cida tem uma produção robusta, de quem não parou de escrever. O curioso é que ela só agora lança um livro por uma editora. É As Filhas de Lilith, que a Calibán lança no próximo dia 20, na Livraria Cultura do Recife. Aqui, a autora se jogou no universo feminino, com todas as minúcias e intempéries própria às mulheres. Mesmo “desconhecida” – seus livros anteriores não estão nas livrarias – Cida tem textos traduzidos para o espanhol e francês em jornais e sites pelo mundo.

As Filhas de Lilith tem ilustrações de Teresa Costa Rego, que acaba de completar 80 anos de vida e design de Jaíne Cintra. O resultado é uma edição bonita, vermelha, um tanto sensual e dolorida, por vezes. A Revista O Grito! conversou com Cida Pedrosa sobre seu novo livro, literatura feminina, internet e a nova produção poética brasileira.

NOS ANOS 1980, VOCÊ COORDENOU O MOVIMENTO DE ESCRITORES INDEPENDENTES DE PERNAMBUCO. COMO VOCÊ OLHA O MOMENTO POÉTICO HOJE, COMPARADO À ANTES, CHEIO DE RECITAIS DE RUA, PUBLICAÇÕES ALTERNATIVAS E ESCRITORES FAMOSOS?
O Movimento é minha cidadania literária. Os meus parceiros da época continuam sendo meus parceiros hoje, embora alguns já tenha se encantado. Acho que éramos muito jovens, eu, Francisco Espinhara, Eduardo Martins, Fátima Ferreira, Héctor Pellizzi, Raimundo de Moraes, dentre outros. O tempo era de luta pela liberdade, estávamos saindo da ditadura militar e tudo que aconteceu marcou muito quem participou e fez um registro na história literária pernambucana. Não se faz uma retrospectiva da história da literatura pernambucana sem citar o Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco. Isso já basta e é muito. Vejo nos recitais e movimento de rua que acontecem hoje uma alegre e saudável releitura de tudo que aconteceu na década de 1980 e isso vai se repetir sempre, afinal não fomos nós que inventamos a roda da palavra. Quanto aos escritores famosos isso é novo, também não sei se são tão famosos assim. Na década de 1980 estávamos longe da fama e o que conhecíamos mais próximo disso em Pernambuco era o César Leal e o Mauro Mota, o resto, nós, mesmo a geração 65 ainda beirávamos o portal da nossa cidade, não pautávamos a agenda nacional, e não sei se isso mudou muito não.

VOCÊ SEMPRE SE PAUTOU POR UMA FACETA PESSOAL, MAS É BEM CONHECIDA POR UMA VERTENTE SOCIAL. EM QUE CONTEXTO DE SUA VIDA NASCEU AS FILHAS DE LILITH?
Lilith é minha maturidade poética. Sou uma escritora em buscas do leitor e do entendimento. É minha primeira publicação por editora, a Calibãn, com distribuição nacional e incentivo do FUNCULTURA. Acho que esse livro é um caldo de cultura que existe dentro e para além de mim.

ESTE SEU NOVO LIVRO ABORDA O UNIVERSO FEMININO. AS POESIAS SÃO FRUTO DE EXPERIÊNCIAS SUAS, OU VOCÊ PREFERIU SE PAUTAR POR UMA ABORDAGEM MAIS UNIVERSAL DAS MULHERES?
Cada mulher tem uma história e vida própria. Algumas são da minha imaginação e objeto da invenção ou re-invenção desse cotidiano maluco. Outras eu conheci de perto ou de passagem, ainda tem as que eu ouvi falar, dizer e ler, mas, com certeza, algumas têm partes minhas.

VIMOS SUA VIDEO-POESIA NA FLIPORTO, ANO PASSADO. VOCÊ SE INTERESSA POR ESSAS CONEXÕES ENTRE TECNOLOGIA E POÉTICA? COMO FOI A EXPERIÊNCIA?
Acho que as interfaces que podemos criar entre a literatura e outras linguagens e expressões artísticas uma das coisas mais interessantes da atualidade. A interface com as novas tecnologias e novas mídias é a que tem mais me atraído. O vídeo-poema foi uma experiência muito legal. O trabalho da Tuca Siqueira ficou super bacana, ela é uma videasta talentosa e sensível à palavra. Quanto a mim acho que a poesia tem que ir para feira mesmo, se misturar, sair dos livros, ganhar o mundo, se reinventar.

TEREZA COSTA REGO ILUSTRA O PROJETO GRÁFICO. O QUE ACHA DO TRABALHO DELA?
Ela é uma mulher e tanto. Como pintora e como pessoa. A pintura dela tem uma verdade tão absoluta que incomoda. Faz um tempo que acompanho os trabalhos dela em exposições e a cada uma que vejo saio comovida e revigorada. É um presente ter ela e a Jaíne Cintra, que fez o design, como parceiras na edição de Lilith.

ATUALMENTE, TEM ACOMPANHADO A PRODUÇÃO POÉTICA NACIONAL? QUAL AUTOR PODE DESTACAR?
Eu não acompanho a cena nacional não. Continuo lendo os de sempre. Ferreira, Joaquim, Drummond, Bandeira, Adélia, Cristina César… e cada dia mais tenho lido literatura pernambucana. Acho que tenho um volume bem razoável de publicações desses poetas. Tirando a poesia de Alberto da Cunha Melo, pela qual sou apaixonada desde muito jovem, tem alguns poetas daqui que são bons demais a exemplo do Marco Polo Guimarães, Everardo Norões, Paulo Gervais, Raimundo de Moraes que tem dois livros lindos, arrebata tudo quanto é prêmio e nunca publicou em livro. Tem a Micheliny Verunschk e Jussara Salazar que são casos a parte, além de grandes poetas que estão na cena nacional. E aí meu amigo, tem o Miró da Muribeca que é uma outra história e tanta gente do xibiu que se eu continuar citando não cabe na internet (e quem eu não citei não pode ficar com raiva). E vou.

(O Grito)

 

Escrito por Cicero Melo às 09:26 PM
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ENTREVISTA COM O POETA FRANCISCO ESPINHARA


Chalopa – Podemos afirmar que suas duas maiores influências são Augusto dos Anjos e Charles Bukowski?

Francisco Espinhara – Sim e não. São os que mais se sobressaem por serem claros e diretos naquilo que abomino: a radiografia da podridão humana. Mas, de forma mais rebuscada e sutil, e com igual intensidade, ainda me dão enorme prazer alguns livros de Machado de Assis, Lima Barreto, Dostoievski( o maior de todos), Franz Kafka, Graciliano Ramos, EdgarAllan Poe, Faulkner, Heminguay e o filósofo Nietzche. Quanto aos demais poetas, alguma coisa de todos aqueles de boas palavras.

Chalopa – Mas voltando para a poesia marginal, como ela se incorporou à cena literária recifense?

Francisco Espinhara – Nos finais dos anos 70, havia alguns grupos formados: o Bandavuô, Nós Atados, Poemar, Grupo do 2001, que viviam e produziam isoladamente e não usavam nenhuma nomeclatuar correlata à marginal( ou novos, undergrounds, periféricos, alternativos, subterrâneos, independentes). Andavam dispersos como os grupos atuais. Com o primeiro Encontro de Escritores Independentes, realizado em agosto de 1981, na Fundação Casa da Criança de Olinda, todos os grupos se congregaram em uma só voz para buscar mais alargamento na nossa malfadada cena literária. Daí em diante, foi uma avalanche de jornais, recitais, debates, concursos, rusgas e um certo respeito por aqueles jovens que não seguiam os métodos tradicionais da literatura, mas a levavam muito a sério.

Chalopa – Existe uma crítica corrente que hoje os novos poetas não gostam de ler, motivo pelo qual não evoluem em sua arte, exatamente por faltar-lhes o conhecimento necessário. Você concorda com essa corrente?

Francisco Espinhara – Concordo plenamente. A maioria desses poetas( nem sei se são poetas realmente, ou sei?) são analfabetos literários, não escrevem “coisa com coisa” nem dizem nada nos seus “maus escritos”, com raríssimas exceções. Eles gostam mesmo é dos recitais: gritam, pulam, fazem firulas, piruetas e poesia, que é bom, necas, ela, a poesia, a nossa dama bastrda, passa ao largo. Não vão chegar a lugar nenhum, vão ficar “temporariozinhos”. Não há tradução, eles simplesmente fazem trocadilhos, juntam palavras, põem-nas em fileiras e ficam muito orgulhosos com os elogios duvidosos dos falsos gurus, que deveriam tomar vergonha na cara e muita coragem para dizer: “rasguem, joguem fora, tentem outra coisa...”. Olhe que não estou falando da poesia tradicional, onde a burilação é mais complexa, estou falando de versos “livres, leves e soltos”.

Chalopa – Ezra Pound dizia existir três categorias de poemas: as que exploram a musicalidade da língua; as que lançam uma imagem, ou pintam um quadro, e as que brincam com o sentido das palavras no contexto em que elas são usadas. Qual dessas categorias é mais presente nos seus poemas?

Francisco Espinhara – Há muito que trabalho tais preceitos, sem que isso seja uma regra visceral. Atualmente deixei a poesia de “molho” e elaboro meus papéis em um sincretismo entre prosa e poesia: “proesia” talvez, no do poeta Jaci Bezerra.

Chalopa – E quanto à qualidade do que se faz hoje na literatura pernambucana. Você diria, no seu pessimismo biológico, que estamos à beira do precipício?

Francisco Espinhara – Bem, já falei sobre a maioria dos mais recentes poetas / escritores, não foi? Uma lástima, por sinal. Mas há que se ver que não estamos no precipício, temos excelentes poetas: Alberto da Cunha Melo( um dos melhores do país), Marcus Accioly, Jaci Bezerra, Ângelo Monteiro, Lucila Nogueira, Tereza Tenório, Arnaldo Tobias( anos 65); Eduardo Martins, Cida Pedrosa, Fátima Ferreira, Héctor Pellizi, Inaldo Cavalcanti, Cícero Melo, Pedro de Lara, Samuca, Erickson Luna, Dione Barreto, Celso Mesquita e Luiz Carlos Monteiro( anos 80); Marcos de Morais, Malungo, Bruno Candéas, Cecília Villanova, Chicão e uma das mais gratas surpresas, Fernando Chile( anos 90). Se alguns pouquíssimos não foram citados, não é que sejam simplórios, mas, no momento, esses que nomeei são os que fazem a literatura se mover, e bem. Quanto aos prosadores, temos três gigantes: Raimundo Carrero, Gilvan Lemos e o personalíssimo Fernando Monteiro.

Chalopa – Ítalo Calvino, referindo-se ao escritor James Perdy, dizia ser a boa literatura da América, a clandestina, de autores desconhecidos, e só por acaso alguns deles vinham à luz, rompendo o cerco da produção comercial. Calvino disse isso em 1959. É o que ocorre literatura marginal, não é mesmo?

Francisco Espinhara – Poderia citar Poe, Bukowski, Wittman, Augusto, Cruz e Souza, Lima Barreto, Sousândrade, etc... Mas vamos ficar na atualidade, veja-se o caso de Alberto da Cunha Melo, que não é umpoeta underground. Quanto aos alternativos dos anos 80, alguns, Samuca e Erickson Luna, se estivessem no Centro-Sul do país, onde “besteirinhas” são sucesso nacional, certamente estariam “consagrados”. Acho que o problema é regional e de contato com a grande mídia e com editores de renome, que hoje, no Sul, abraçaram a causa marginal comercialmente, ganhando em “espécie” e em qualidade. Em Pernambuco, temos ótimos autores, para dar e vender.

Chalopa – Além disso, existe também preconceito de parte da grande imprensa em não abrir espaço para os independentes. Por que você acha que isso ocorre?
Francisco Espinhara – Bem, vou colocar mais lenha na fogueira. Um “cara” como Orismar Rodrigues, colunista social, dar-se espaço, promove-se na sua própria coluna, joga confetes em si e nos sobrenomes seculares. Tudo fica ali mesmo, entre eles, na frescurinha dos ouros e na panelinha do chá das cinco. Os jornais já não são os mesmos, na década de 80 ainda havia um Cunha Melo, um Marco Pólo, um Mário Hélio( apesar de peçonhento). Hoje o que vemos é um desfile de release já prontos, enviados pelas editoras e transcritos pelos colunistas. Os articulistas parecem mais da Folha de São Paulo do que dos diários locais. Proponho um dia mensal para a queima desses jornais( uma pilha, uma tulha), em praça pública, para verse pelo menos eles se dão conta do grande fogaréu.

Chalopa – E quanto à prefeitura, o que você achou da iniciativa de publicar os poetas marginais do Recife, em três volumes, o segundo lançado recentemente?

Francisco Espinhara – Por lado péssimo, por outro, ótimo. Deveriam ter mais acuidade na seleção dos poetas e na revisão. Os organizadores pecam por não terem o domínio do contexto histórico, apesar de um ou outro ter participado do príncipio de tudo. Há também um certo nepotismo, apadrinhamento. Há poetas que deveriam ter “saído de cara”, pois, além de serem de boas palavras, deram o “sangue” para que esse projeto, hoje, viesse à tona. Por outro lado, não me contradizendo, é ótimo por incentivar os que estão iniciando( ainda que alguns muito mal) e por abrir um precedente no seio oficial. Há também a questão do registro histórico, imprescindível para que a literatura teórica tenha suporte crítico. No mais, parabéns.

Chalopa – Vamos agora voltar no tempo. Nos anos 80, os fanzines tinham uma linha editorial clara e definida ideologicamente. Hoje, eles reduziram o já minguado espaço e o interesse pela crítica cultural. Como você enxerga essa questão?

Francisco Espinhara - Acho que as “folhinhas” poderiam ser substituídas por verdadeiros jornais alternativos. Os nanicos surgiram para suprir uma lacuna que os grandes diários não quiseram acolher, posto serem reféns do poder, “bucha de canhão” das “igrejinhas” elitistas e não se dão, fogem, a temas polêmicos e a escritos fora dos padrões convencionais. Daí a necessidade, como nos anos 80, de termos fanzines em “alta voz” e não apenas “folhinhas egocêntricas” que repetem sempre os mesmos autores, quando não os editores, ou copiam, quase invariavelmente textos de outras “folhinhas” ou de alternativos mais robustos. A vaidade impera e há algo de “marocas” nas entrelinhas. Nos anos 80, havia uma série de jornais com linha editorial definida, clara e séria. Louvo as “folhinhas” pelo empenho em divulgar a literatura, mas os editores poderiam se esforçar mais, já que as dificuldades atuais são bem menores do que as da década de 80.

Chalopa – Por outro lado, os novos poetas rejeitam enfaticamente sua postura. Eles “presunçosos”, principalmente quando se arvora ao direito de arbitrar que é ou não poeta. Eles dizem também que você é muito injusto na opinião que emite. O que você tem a dizer sobre isso?

Francisco Espinhara – Não sou chato, sou chatíssimo, arrogante e presunçoso naquilo em que tenho certo domínio. Todo mundo quer elogios, então faça por onde merecê-los. Muitas vezes o poeta Alberto da Cunha Melo rasgou, em mesa de bar, alguns pápeis meus, ao invés de ficar chateado, aborrecido e muito ofendido, eu reconstruía o texto de outra forma ou, às vezes, nem reconstruía, jogava-o ao vento ou ao lixeiro. Eu era jovem e aquele gesto de Alberto foi minha melhor aula para persistência, paciência e laboração de um escrito. Sou chato, chatíssimo, mas tão chato que a todo momento eu quero me livrar de mim mesmo, quanto a ser injusto nas opiniões emitidas, mais tarde, se conseguirem superar os maus escritos e se eu ainda estiver vivo, dou a mão à palmatória e eles poderão dizer: “aí, seu filho da puta, somos grandes poetas...”

Chalopa – Para finalizar, a sua mensagem de otimismo para o ano que se inaugura?

Francisco Espinhara – O ano nem se inaugura nem se finda, o tempo é um só, constante, com suas intempéries a nos fustigar ininterruptamente. Não tenho nada e nada de esperanças, odeio a vida em si, o que me retém para tentar reconstruí-la de um modo material(“conforto e segurança”) é o meu filho Iago, caso contrário...

(Jornal Chalopa, Recife - PE, janeiro de 2004)

Escrito por Cicero Melo às 08:16 PM
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