Cicero Melo - Os poetas explodem!


18-11-2013


UM POEMA DE CICERO MELO

DOMINGOS

 

Domingos, Alexandre,

São os piores dias.

As ruas se aproveitam

Para ficarem nuas.

 

(Cícero Melo, inédito)


Escrito por Cicero Melo às 08:07 PM
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16-08-2013


UM SONETO INALDO CAVALCANTI PARA CICERO MELO

 

O ADORÁVEL BICÃO

                       

Eternamente isento sigo além

Das contas dolorosas de cerveja.

Bolsos vazios, onde quer que esteja,

Dos versos maus imigo sou também.

 

Nunca fugi da etílica peleja.

De copo em riste monto o palafrém.

Eu cavalgo os bares sem vintém,

Ao sabor do luar que me dardeja.

 

Amigos e companheiros batem coro:

- Ó nobre cavaleiro de alto foro,

Vós massacrais o afã de nossa luta!

 

O destemor da luta me agasalha.

A minha sede o bolso vos enluta.

Mas eu bebo no campo de batalha.

 

 

Escrito por Cicero Melo às 06:59 PM
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18-05-2012


TRÊS POEMAS DE UBIRAJARA MELLO DE ALMEIDA

 

VERBO

 

As palavras são folhas que caem

Da árvore do silêncio

E o silêncio é o alimento do sonho

Que brota no cio da imaginação.

 

Palavra:

Rio de silêncio

Que desemboca

Em minh’alma

E se curva

Sobre o corpo

Para aplacar

O delírio da invenção.

 

EPITÁFIOS

 

A vida se foi  num pé e voltou noutro,

Como o vento bêbado perfuma os dias

do tolo que sobrevive feito um potro

nessa única  matéria de formas vazias.

 

Se foi o homem de olhos cansados

Para a caixa do próximo descarne

Sobre a lápide  dos corpos pesados

Quando separam os ossos da carne.

 

Se foi aquele que sentiu desejos

Não de amor mas de todas feridas

No corpanzil chagado sem pejos

Que se uniam às sobras moídas.

 

Se foi o homem que não teve nome

Como bicho esfolado no asfalto

Quando a morte é metade da fome

A outra, vem traçada no alto.

 

Se foi o que perdeu nem teve vida,

Seus bens era uma velha carroça

Que servia de escrava e guarida

Onde empestava um cheiro de fossa.

 

 

 

BECO DA FANTASIA

 

 

No bar a mesa é um sonho

Com todas cadeiras de vidro

No gótico céu que suponho

Oculto nas folhas de um livro.

 

Despido o olhar do pudor

Levanta-se o véu gracioso

Onde vagueia o amor

Com cínico ar de esposo.

 

As vozes já quase bêbadas

Florescem no azul certas cores

Cerzidas nas labaredas

A queimar nos seus alvores.

 

A noite traz no desejo

O copo que se evapora

No bordado de um beijo

Tecido na mesma hora.

 

Em cada gesto escorrega

Uma parte do prazer

Na face tua dor é cega

Mas sabe tudo que ver.

 

Branca a espuma flutua

No fogo de cada paixão

No corpo que é meia-lua

No grito de gelo no chão.

 

 

Escrito por Cicero Melo às 07:10 PM
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27-01-2012


UM SONETO DE UBIRAJARA MELLO DE ALMEIDA

VIVE MINH'ALMA NO SILÊNCIO DO ESPELHO

 

Vive minh’alma no silêncio do espelho,

Caiu na armadilha à toa, embriagada.

Inquieta e perdida grita emoldurada

No limite banhado de vermelho,

 

Fala o corpo, livre da sombra e da agonia.

Agora dança feliz sem medo do pecado,

Longe da servidão que o afligia

Não tem noção do presente e do passado.

 

Insensível, traz o coração sem vida,

Enlouquece com toda bebida,

Dorme, acorda em paz, com calma.

 

Solitário e sem luz, vagou errante,

Da liberdade voltou ao brilhante

E louco em prantos agarrou-se à alma.

Escrito por Cicero Melo às 08:22 PM
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16-11-2011


SEIS POEMAS DE PEDRO DU BOIS

1. AGORA E DEPOIS
 
Depois a destreza
com que travo a mão
na hora do ataque:
 
       gesto comedido
       imensurável
       duradouro
       com que a mão
       alcança o alvo
       e se detém
       em incomum
       reconhecimento
 
agora guardo o nascer da estrela
fria da descoberta: encerro
a hora da promessa em espaço
trespassado em dores
 
                na destreza tenho
                a imagem deslocada.
 
 
2. DANÇAR
 
O corpo imobilizado
aguarda o instante
em que a música
incita à dança
 
dança suavemente
e o corpo reconhece
o gesto preso na garganta
 
sonha o tempo
exato da lembrança: segue
a dança
 
     soa seu corpo
     ao solo
 
mobiliza forças
e as distribui
sem arrependimento.
 
 
3. SENTIR
 
Com o sentido
        inicial: reponho as mãos à cabeça
                  em entrega
 
   (lembro o tempo de afastadas imagens
    recorrentes no presente)
 
                   em condenação
                   em execução
 
  como rezam contratos
  em pétreas cláusulas:
 
   ao destino esclareço o texto
   sentido na entrega.
 
 
4. LAGOS
 
A água esverdeada do lago
entre árvores não reflete
o ocaso do lodo
no fundo
 
- imprime no pingo da chuva
o centro concêntrico
da queda -
 
o pássaro entre árvores
protegido trina
meus ouvidos
 
(a voz da criança no ambiente
 fechado do apartamento
 grita sucessiva vontade
 de liberdade)
 
a chuva altera a superfície
e o lago calado em trinados
e gritos
afoga sua profundeza.
 
 
5. SERMOS
 
Profanamos guerras:
santificadas epopéias
desnudadas em carnificinas
 
julgamos a morte
na redenção do corpo
de vida extinta
em seca fonte
 
informamos o estrondo
não ouvido em conversas
 
brilhamos ectoplasmas
nos espaços vazios
da inconsequência
 
fechamos a porta e em nada
amortecemos farsas decoradas.
 
 
6. COMO SERIA
 
Não fosse a chuva
em eterno retorno
   (eterno: a suavidade da volta
    se faz água translúcida
    na impossibilidade da fuga)
 
a terra seca ao contato
se desfaz em poeira cósmica
               (cósmica: a visão anterior do espaço
                percebido em distâncias alheias
                ao corpo não fragmentado)
 
arremessada ao espaço
desprovido da atmosfera
dos viveres
       (viveres: o plural acentua a ideia
        do pensamento externo da vaidade)
 
como excelência e inútil arroubo
por sermos livres
      (livres: a horizontalidade do arremesso
       diagramado da espécie afeita
       em saltos de entendimento).
 

Escrito por Cicero Melo às 04:58 PM
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10-11-2011


DOIS SONETOS DE THEO DRUMMOND

 

ASSIM SOU EU

 

Eu sou sozinho, e minha companhia

Eu mesmo sou, por isso vivo triste.

Isso tu não percebes: cada dia

Me afundo mais naquilo que não viste.

 

Esta tristeza me acompanha e insiste

Fazer da minha vida esta agonia.

Não sei por quanto tempo ela resiste:

Olho ao redor e a casa está vazia.

 

Tu não percebes quanto o não estares

Sempre comigo me magoa e é dor

Que faz doer demais meu coração.

 

O que posso fazer com meus penares

É apenas prosseguir com meu amor,

Na espera de algum dia tu voltares

 

 

ACONTECIMENTO

 

O cão latiu para acordar seu dono

Que deitado num banco do jardim

Parecia dormir um longo sono,

Desses que não parecem ter um fim.

 

A praça era um espelho do abandono:

Moradia dos dois vivendo assim,

Vendo o tempo passar, inverno, outono,

Sem procurar lugar melhor, enfim.

 

Uma velha senhora que trazia

àquela mesma hora, todo dia,

um prato de comida para os dois,

 

Ao chegar estranhou que o seu gemido

Era cheio de dor: logo depois,

Viu que o dono do cão tinha morrido.


Escrito por Cicero Melo às 05:17 PM
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08-11-2011


SETE POEMAS DE ANTONIO DE CAMPOS

ENCONTRO DE SAFO COM AS MUSAS EM LESBOS

 

Safo aguarda as Musas

pra um encontro

 

Que palavras não se dirão?

 

Os versos subirão

do mais íntimo,

existirão tão visíveis, claros,

que Safo os apalpará

 

Vinde a mim,

remota feminista

e inspiradoras de gregos,

como o tempo de amar:

 

em silêncio

 

E nossos dias serão iguais

a um poema –

pra sempre!

 

HAI-KAI DO PODER POPULAR OU POEMA ESCRITO EM MIM

 

                                 transmitido por uma voz suave

 

Três homens

de mãos dadas

têm a largura dum rio.

 

BALADA PRA JOHN LENNON

 

As luzes de Nova Iorque, ao apagar

de teu coração, perderam a cor do filamento.

Manhattan, uma terra de lágrimas, agora.

Mas o pássaro canta: He’s only sleeping!*

 

Muitas são as maneiras de se matar um homem,

a morte é que é uma só. Se difícil

madeira e cravos, fácil um buquê de balas.

Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

 

Quatro balas quentes como a rosa

acesa de Hiroshima, quatro cordas partidas,

quatro punhaladas de chumbo.

Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

 

O inverno chegou mais frio

e a neve sobre o teu corpo é negra

como a pele dos que no Harlem te pranteiam.

Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

 

Não mais verão teus olhos puros de criança,

parados num pedaço qualquer do céu da cidade

e com a infinita impossibilidade de chorar outra vez.

Mas o pássaro canta ainda: He’s only sleeping!

 

Por mim irias com aquele terno branco

e um punhado de vento em teus cabelos,

mas isso nada vale pra ressuscitar canções em tua boca.

E o pássaro canta mais alto que nunca: He’s only sleeping!

 

Ele apenas dorme!

 

UMA FOLHA PRA WHITMAN

 

Ah, Whitman, estranho como um ano depois

tu virias, suave enfermeiro,

em meu socorro.

Aos desafortunados levavas medicamentos,

a mim me chegaste com uma folha de tua relva:

 

aquela em que dizes ter visto em Luisiana

um carvalho crescendo. Nunca estive em Luisiana,

jamais vi um carvalho,

mesmo a crescer sozinho.

 

Contudo, também me senti com saudades,

quando num bairro proletário,

longe de casa,

contemplei uma cajazeira de cujo galho

dois rebentos desafiavam o mundo.

 

Os dois eram tenros e um mais que o outro.

Um era mais crescido e o outro o acompanhava

em crescimento.

Não conheceste uma cajazeira,

como ignoro as feições dum carvalho.

 

Porém sabemos que são árvores vivas

e por serem vivas,

nos ensinaram.

 

Que coisa, Whitman, sentirmos que ao vê-las,

pensamos em nós, porque nos outros:

tu em teus companheiros

sem os quais não podias viver

como vivia aquele carvalho triste, solitário.

 

E eu me tomando por uma cajazeira,

via em seus tenros rebentos

meus filhos distantes.

 

Tuas alvas barbas não as tive ao pé,

mas que tem isso a ver se te conheço irmão

e a lição dos Homens

aprendemos com as árvores?

 

Se abro o teu livro, já não estou só:

eu sou teu companheiro em outro hemisfério!

 

 

ALMIRANTE E GAJEIRO À ESPERA

 

Engalanado Almirante,

olhos firmados adiante,

não vejo terras d’Espanha,

só esta angústia tamanha.

 

Gajeiro do mais alto,

olho o mar em sobressalto,

e nada de Portugal,

só esta tristeza habitual.

 

Almirante e gajeiro,

olho e ordenando vou,

e não vêem meus olhos

o que vendo estou.

 

São outras terras que vejo,

não restos, não sobejos,

nem Guadalquivir, nem Tejo –

o que vejo não há de vir.

 

SOLIDARIEDADE

 

Canto as armas e o homem,

assim começa a Eneida.

Canto o homem e suas armas,

trova Aragon.

 

Eu canto o homem sem armas,

canto a arma que o tempo não muda:

saúdo o Sonho

e bebo ao Ideal.

 

Canto os campônios:

o que da baioneta fez arado

e esperou ansioso

as sementes brotarem,

 

como o que fecundando

o campo arado duma mulher,

sentiu o crescimento

da agricultura semeada.

 

Quando os homens

não mais precisarem de defesa,

uns aos outros eles próprios dirão:

Só cantamos nossa humanidade!

 

Eu canto o homem

sem armas. A mais humilde bala,

eu não canto, não!

 

 

SIM, VOCÊS PODEM!

 

a América... em tempos futuros revelará sua

importância histórica, talvez numa guerra

entre a América do Norte e a América do Sul

 

Hegel

 

Sim,

vocês podem

 

fazer a neve

em Nova Iorque

cair como pétalas

de cor rosa-choque

 

Sim,

vocês podem,

 

num buraco raso

dum verde

campo de golf,

 

transformar

a profunda

depressão

 

Vocês

só não podem

 

é mudar

as penas da águia

nas doces penas

de meu azulão!


Escrito por Cicero Melo às 06:39 PM
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TRÊS POEMAS DE SAMUCA SANTOS

acordar é ter saída?

 

labirinto de espelhos

e borges no meu juízo

biblioteca só de livros

paredes livros sem teto

:oh ícaro

podes ver o céu

mas não podes voar

 

nem braile nem audiobooks

perdido em mim

no way out, diz o corvo

atirando a esmo

:poe! poe! poe!

 

acordo encharcado de suor

dante me recebe

com um sorriso escroto

e o inferno

é feito de círculos

gangorras ciclos espirais

 

...

república de olinda

16.03.11

 

---

(dez)ilusões

 

não quero a menina

não saberia o que fazer com ela

também não sei onde foi se esconder

nos corredores de outrora

tenho certeza que não

 

queria a promessa dos seios

no corpinho leve

a boca que não sabia beijar

e toda a precocidade do pensamento

em formação

: a menina tinha atitude

e era tudo o que eu quis

 

mas também não sei se quero

a mulher com seus problemas

adultos, somos absurdos

e não nos encontraremos nunca

 

república de olinda

1º.03.11

 

---

poema em crise

 

refém do dia-a-dia

e suas miudezas

incerto é o porto

da criação

 

hoje um desejo

depois um poema

ou um acidente

:sonho

que não vira projeto

massa fodida

e o que restou 

do cimento

,lama?

 

...

república de olinda

21.03.11


Escrito por Cicero Melo às 06:20 PM
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UM POEMA PARA CICERO MELO

 

ÓRFICO

 

        Inaldo Cavalcanti

 

A teologia aprende contigo.

 

Os pássaros voam,

Aprendem contigo.

 

Os anjos, em greve,

Aprendem contigo.

 

O inferno, chamado palavra,

Aprende contigo.

 

A dor, prova ou castigo,

Tumor da esperança,

Aprende contigo.

 

Bailarina louca de cisne

Aprende contigo.

 

Totem maior da Aurora.

 

 

Escrito por Cicero Melo às 05:53 PM
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05-11-2011


BRUXELAS

 

Domingos Alexandre

 

A Esman Dias

 

Escurecia e o dia era tão frio

que cada rua era um desvão sombrio

e nossos passos pelo calçamento

num compasso de mudo desalento

soavam como fuga para o Eterno

ante o cerco sem fim daquele inverno.

As pessoas envoltas em seus mantos

passavam numa profusão de espantos

perdendo-se, de vez, por trás dos muros

em busca de lugares mais seguros

e o céu baixava com indiferença

a nublada carranca. A noite imensa

sem coorte de estrelas e sem lua

caía bruscamente sobre a rua.

E eu seguia sem rumo e sem saída

na noite que inundava minha vida.

 

Sob os arcos de um velho monumento

gemia um vagabundo sonolento

e o vento uivando para todo lado

passava como um lobo esfomeado.

Naquela noite minha solidão

se arrastava ao meu lado como um cão

que embora exposto à dor e ao abandono

se recusava a abandonar o dono.

E eu, desterrado e, ali, vagando a esmo,

carregando esse espectro de mim mesmo,

caminhava sob a garoa fria

que doía nos ossos e feria

com as pontas dos dedos o meu rosto

aumentando-me a chaga do desgosto

numa Bruxelas para sempre hostil,

a centenas de léguas do Brasil.

 

Há um momento em que, longe de casa,

o homem pensa em tudo que lhe abrasa

o coração, repensa toda a vida

e vê como cresceu sua ferida,

como tudo fugiu e quase nada

lhe resta do que amealhou na estrada,

vê como até o amor naquela hora

é só lembrança do que foi, outrora,

o verde imaculado da esperança;

é poeira dos passos de uma dança,

que há muito se acabou e no salão

deixou apenas ecos da canção.

Percebe, então, que em cima de tudo isso

a noite tomba no auge do seu viço

lançando um gosto amargo de derrota

nessa vida que aos poucos se desbota.

Mas não pode fugir: o tempo é escasso

( a morte nos espreita a cada passo)

e essa mesma Bruxelas que o assedia

é toda sua vida fugidia,

tudo que ele viveu ou não viveu

e para sempre, agora, se perdeu.

Vê que a dor é sem fim e que no mundo

nos envolve segundo por segundo.

Mesmo assim ele arrosta a chuva fria

de uma cidade estúpida e sombria

desemborca seu barco, enfuna as velas

e se perde na noite de Bruxelas.


 

Escrito por Cicero Melo às 08:30 PM
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SEIS POEMAS DE DELASNIEVE DASPET

 

E agora ?

 

Rasgo os poemas,

Renego as lágrimas,

Mato a dor..

.

Fino pó

Cobre a memória

Como um raio de luar.

DD_Campo Grande-MS, 12.01.11

 

Aridez

 

Nas areias que se agitam

Na mudança das dunas

O prenúncio da tempestade.

Grãos que queimam

No tempo tão incerto,

Oásis infecundo de lágrimas.

Nas estrelas noturnas,

O brilho seco se destaca...

No silêncio do deserto

É árido o teu olhar.

DD _ Campo Grande, 05.01.11

 

Não entendo...

 

Olho-me..

Procuro entender-me.

Do lado de fora miro o meu avesso,

Quero ver o que nunca vi,

O que não entendo

Do meu outro lado!

DD_Campo Grande-MS, 09.01.11

 

Longitudinal

 

Disponho meu corpo

Em sentido longitudinal...

Faça o corte

De cima, abaixo,

Diga-me, ainda sou eu ?

Rasga-me a pele,

Abra-me...

Procuro-me...

Já não me reconheço!...

DD – Campo Grande, 06.01.11

 

Sinestesia

 

Fecho os olhos atentos,

Tua imagem surge em minha mente.

Devagar, torna-se brilhante...

Toma conta, preenche os vazios!

Ouço tua voz, na imaginação.

Teu riso, cristalino, é agradável;

Tua lembrança é quente, macia, suave.

Fraca aragem,

Saia de minha mente,

Faze-te presente...

DD_Campo Grande, 22.03.11

 

Loucura

 

Ouço-te!

Tua voz são melodias de Pã...

Te celebro...

Sou tua sofista.

Quem melhor do que eu para

Pintar-me como sou?

Quem melhor do que eu para exaltar

A loucura que me envolve?

Quem, a não ser eu, falaria de mim,

Pintando-me em palavras?

DD_Campo Grande-MS, 24.06.11.

Escrito por Cicero Melo às 07:42 PM
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REI MORTO

Domingos Alexandre

             

              Em memória de Muammard Kadafi

 

Entre chacais enfurecidos

Eis o velho tirano agora nu e sem rosto.

Apenas um cadáver que navega

Sem rumo certo em meio à multidão.

 

Enquanto chutavam os seus flancos

Lambeu as mãos que lhe batiam na face

E ouviu os gritos de sarcasmo

Dos que, tomando-o pelo braço,

Untaram-no com sangue

E o lançaram por terra sem perdão.

 

Repousa agora só, numa trilha de escarros

Sob o céu de verão que o espia calado,

Abandonado e morto como um rei desvalido,

Desamparado e sujo como um cão.

 

Escrito por Cicero Melo às 06:08 PM
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19-03-2011


DEZ SONETOS DE MÁRCIA SANCHEZ LUZ

Lua Negra

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Amo demais que até ferida brota
na cálida, escondida lua negra
dos meus delírios (dor que desintegra
calma desnuda em chuva de gaivota).

Os olhos choram mares, geram grotas,
fabricam densa nuvem que se integra
ao corpo equivocado pela entrega
sofrida num adeus desfeito em gotas.

Amo demais, eu sei, mas o que faço
se de outro jeito não conheço o amor?
A minha sina é nunca combater

o que me atrai e gera descompasso.
Se por um lado existe o dissabor,
tenho da vida a flor que vi nascer.


O amor no sonho

 

© Márcia Sanchez Luz

 

O amor é tão perfeito quando durmo,

que mal me dá vontade de acordar!

Mas não tem jeito – o dia vem soturno

e o sonho acaba. É duro acreditar.

 

O amor no sonho é como o deus Saturno,

num farto, afoito e intenso festejar;

o adeus ao laço – algoz e taciturno –

que avilta, agride e evita o libertar.

 

O amor de sonho é sempre um aconchego;

permite ao colibri (que não descansa)

um beijo à flor que finge desapego.

 

Amor assim é sábado constante;

acalma o que guardado a dor alcança

e afasta a realidade lancinante.

 

 

Infinda Solidão

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Por quem me tomas quando o amor que sinto
da carne dista, é sensação do peito?
O anseio que me assola é puro instinto
guardado no sonhar sem preconceito.

Por quem me tomas neste labirinto
de dor e medo e cheio de defeito?
O meu sentir não pode ser extinto
por conta de um conflito sem efeito.

Por ora busco alguma direção
para aquietar-me a mente tão doída
que só concebe o que não tem razão.

Se eu não achar porém explicação
passível de curar esta ferida,
me entregarei somente à solidão.

 

 

Escrever

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Escrever é sorver a dor aos poucos,

é contar a si próprio o que bem sabe,

mas que aflige demais! Por ser tão louco,

faz que a alma, em torpor, logo desabe.

 

É cruel falar sobre o que machuca!

Mais cruel, entretanto, é não sentir

o que a vida oferece: pura luta

entre o ser complacente e o insurgir.

 

Se escrever é dar forma a certa ausência

na calada da noite ou mesmo dia,

vou seguir exaurindo a desavença.

 

Eis portanto o que faz a diferença

entre aquele que vive e contagia

e o que não sente a vida assim intensa.

 

 

Vida

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Se digo que pra tudo há recomeço

e que a tristeza um dia se desfaz,

é porque o inverno, triste cinza-espesso,

a luz da primavera em si já traz.

 

Se calo-me e da dor não me despeço

e não censuro o sonho (que é fugaz),

é porque guardo a noite em mim, confesso,

pois nela eu sinto que sou mais capaz.

 

Fico em silêncio em meio aos meus segredos

enquanto a lua se despede aos poucos

e dá lugar ao sol e seus enredos.

 

Pairam no ar sementes de verão!

E verdejantes são as suas folhas,

valentes como o dom da floração!

 

 

Cicatrizes

 

© Márcia Sanchez Luz

 

O que foi dito, amor, já está guardado,

virou história que magoa em vão.

E se as palavras voam, na emoção

meu coração pranteia, amargurado.   

 

O que ficou no meu sentir gravado

é pensamento em plena ebulição

que nem por força, nem por ablação

consegue reduzir o desagrado.

 

Pr’o que foi dito não há mais remédio,

pois que o elixir que abranda não demove

o mal que me causaste - que agonia!

 

E se o perdão aliviasse o tédio

que sinto (mesmo que da dor só prove)

estejas certo, é tudo o que eu faria!

 

 

Ser mãe...

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Ser mãe é ser alguém que na alvorada

bendiz o brilho que anuncia o dia

trazendo a luz do sol em sintonia

com o burburinho de uma passarada.

Ser mãe é ser a doce madrugada

que põe um fim à mágoa doentia;

é ser também a força da magia

curando a febre que se faz calada.

Ser mãe é buscar sempre uma saída

para acalmar o coração inquieto

do filho que se fecha em seu afeto.

Ser mãe é estar atenta para a vida,

é ver além do amor que não deu certo,

fazendo de sua cria um ser liberto.

 

 

Poeta 

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Sou da palavra a chama que descreve    

e alisa e abraça as causas mais diversas.

Se for de outrem a dor que não prescreve,

faço-lhe minha amante mesmo em trevas.

 

Se acaso o sopro me lançar à verve

de uma cantiga envolta em densas névoas,

deixo a cadência se verter bem breve

e transformar em flor dores primevas.

 

Mas se no equívoco da fantasia

eu acordar de um sonho desvalido,

não vou chorar – conheço a ventania!  

 

Sei que adiante a luz que outrora havia

vai ressurgir até no amor premido

por uma febre ardendo em demasia.

 

 

Contradança

 

© Márcia Sanchez Luz

 

Sou feito a bailarina que descansa,
entregue após a valsa que entristece
e que a faz, sorrateira em esperanças,
refrear o desejo que emudece.

Tão pouco sei de mim e de você!
(Do riso pulsa a veia latejante)
O espelho em que me vejo é tão clichê!
Reflete até o espaço itinerante!

Assim, quando acordar da contradança,
aguardarei o olhar que me envaidece
e que me faz corar e me enternece.

E entardecendo a dor que não fenece
meus olhos, de cansaço, vão se unir.
À espera, movimento não padece.

 

 

Seixos Transparentes

 

© Márcia Sanchez Luz

 

De tanto amor e dor que a ti concedo
meu corpo de minha alma se liberta.
O amor não tem remorsos nem avessos
A dor, porém, fulmina e não me alerta.

É sôfrega a palavra que me invade
em trajes tão secretos e prementes!
Melhor seria a dor em seu contraste
vertendo a seiva em seixos transparentes.

Viver em ti não pode ser promessa
de noite entristecida alvorecer
e nem apaga a dor que em mim professa.

Assim transcendo a busca que não cessa
e a brisa flamejante vem trazer
o aroma do pulsar que me interessa.

 

...

 

Márcia Sanchez Luz

Natural de São Paulo, capital. Publicou pela Ed. Protexto:

. Quero-te ao som do silêncio!
. Porões Duendes
. No Verde dos Teus Olhos

 

Escrito por Cicero Melo às 06:03 PM
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06-09-2010


Entrevista: Cida Pedrosa


Cida Pedrosa (Foto: Tuca Siqueira/ Divulgação)

DA MULHER
Em entrevista, escritora Cida Pedrosa fala sobre literatura da década de 80 e o seu próprio redescobrimento
Por Paulo Floro

A poeta Cida Pedrosa é remanescente de um tempo onde ainda se podia encontrar relevância num movimento poético dentro da Literatura Brasileira. Mesmo que seu Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco, do qual foi expoente não tenha alcançado holofotes em outras capitais do País, ainda hoje é lembrado na história da poesia brasileira.

Vanguardista e militante, Cida tem uma produção robusta, de quem não parou de escrever. O curioso é que ela só agora lança um livro por uma editora. É As Filhas de Lilith, que a Calibán lança no próximo dia 20, na Livraria Cultura do Recife. Aqui, a autora se jogou no universo feminino, com todas as minúcias e intempéries própria às mulheres. Mesmo “desconhecida” – seus livros anteriores não estão nas livrarias – Cida tem textos traduzidos para o espanhol e francês em jornais e sites pelo mundo.

As Filhas de Lilith tem ilustrações de Teresa Costa Rego, que acaba de completar 80 anos de vida e design de Jaíne Cintra. O resultado é uma edição bonita, vermelha, um tanto sensual e dolorida, por vezes. A Revista O Grito! conversou com Cida Pedrosa sobre seu novo livro, literatura feminina, internet e a nova produção poética brasileira.

NOS ANOS 1980, VOCÊ COORDENOU O MOVIMENTO DE ESCRITORES INDEPENDENTES DE PERNAMBUCO. COMO VOCÊ OLHA O MOMENTO POÉTICO HOJE, COMPARADO À ANTES, CHEIO DE RECITAIS DE RUA, PUBLICAÇÕES ALTERNATIVAS E ESCRITORES FAMOSOS?
O Movimento é minha cidadania literária. Os meus parceiros da época continuam sendo meus parceiros hoje, embora alguns já tenha se encantado. Acho que éramos muito jovens, eu, Francisco Espinhara, Eduardo Martins, Fátima Ferreira, Héctor Pellizzi, Raimundo de Moraes, dentre outros. O tempo era de luta pela liberdade, estávamos saindo da ditadura militar e tudo que aconteceu marcou muito quem participou e fez um registro na história literária pernambucana. Não se faz uma retrospectiva da história da literatura pernambucana sem citar o Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco. Isso já basta e é muito. Vejo nos recitais e movimento de rua que acontecem hoje uma alegre e saudável releitura de tudo que aconteceu na década de 1980 e isso vai se repetir sempre, afinal não fomos nós que inventamos a roda da palavra. Quanto aos escritores famosos isso é novo, também não sei se são tão famosos assim. Na década de 1980 estávamos longe da fama e o que conhecíamos mais próximo disso em Pernambuco era o César Leal e o Mauro Mota, o resto, nós, mesmo a geração 65 ainda beirávamos o portal da nossa cidade, não pautávamos a agenda nacional, e não sei se isso mudou muito não.

VOCÊ SEMPRE SE PAUTOU POR UMA FACETA PESSOAL, MAS É BEM CONHECIDA POR UMA VERTENTE SOCIAL. EM QUE CONTEXTO DE SUA VIDA NASCEU AS FILHAS DE LILITH?
Lilith é minha maturidade poética. Sou uma escritora em buscas do leitor e do entendimento. É minha primeira publicação por editora, a Calibãn, com distribuição nacional e incentivo do FUNCULTURA. Acho que esse livro é um caldo de cultura que existe dentro e para além de mim.

ESTE SEU NOVO LIVRO ABORDA O UNIVERSO FEMININO. AS POESIAS SÃO FRUTO DE EXPERIÊNCIAS SUAS, OU VOCÊ PREFERIU SE PAUTAR POR UMA ABORDAGEM MAIS UNIVERSAL DAS MULHERES?
Cada mulher tem uma história e vida própria. Algumas são da minha imaginação e objeto da invenção ou re-invenção desse cotidiano maluco. Outras eu conheci de perto ou de passagem, ainda tem as que eu ouvi falar, dizer e ler, mas, com certeza, algumas têm partes minhas.

VIMOS SUA VIDEO-POESIA NA FLIPORTO, ANO PASSADO. VOCÊ SE INTERESSA POR ESSAS CONEXÕES ENTRE TECNOLOGIA E POÉTICA? COMO FOI A EXPERIÊNCIA?
Acho que as interfaces que podemos criar entre a literatura e outras linguagens e expressões artísticas uma das coisas mais interessantes da atualidade. A interface com as novas tecnologias e novas mídias é a que tem mais me atraído. O vídeo-poema foi uma experiência muito legal. O trabalho da Tuca Siqueira ficou super bacana, ela é uma videasta talentosa e sensível à palavra. Quanto a mim acho que a poesia tem que ir para feira mesmo, se misturar, sair dos livros, ganhar o mundo, se reinventar.

TEREZA COSTA REGO ILUSTRA O PROJETO GRÁFICO. O QUE ACHA DO TRABALHO DELA?
Ela é uma mulher e tanto. Como pintora e como pessoa. A pintura dela tem uma verdade tão absoluta que incomoda. Faz um tempo que acompanho os trabalhos dela em exposições e a cada uma que vejo saio comovida e revigorada. É um presente ter ela e a Jaíne Cintra, que fez o design, como parceiras na edição de Lilith.

ATUALMENTE, TEM ACOMPANHADO A PRODUÇÃO POÉTICA NACIONAL? QUAL AUTOR PODE DESTACAR?
Eu não acompanho a cena nacional não. Continuo lendo os de sempre. Ferreira, Joaquim, Drummond, Bandeira, Adélia, Cristina César… e cada dia mais tenho lido literatura pernambucana. Acho que tenho um volume bem razoável de publicações desses poetas. Tirando a poesia de Alberto da Cunha Melo, pela qual sou apaixonada desde muito jovem, tem alguns poetas daqui que são bons demais a exemplo do Marco Polo Guimarães, Everardo Norões, Paulo Gervais, Raimundo de Moraes que tem dois livros lindos, arrebata tudo quanto é prêmio e nunca publicou em livro. Tem a Micheliny Verunschk e Jussara Salazar que são casos a parte, além de grandes poetas que estão na cena nacional. E aí meu amigo, tem o Miró da Muribeca que é uma outra história e tanta gente do xibiu que se eu continuar citando não cabe na internet (e quem eu não citei não pode ficar com raiva). E vou.

(O Grito)

 

Escrito por Cicero Melo às 09:26 PM
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ENTREVISTA COM O POETA FRANCISCO ESPINHARA


Chalopa – Podemos afirmar que suas duas maiores influências são Augusto dos Anjos e Charles Bukowski?

Francisco Espinhara – Sim e não. São os que mais se sobressaem por serem claros e diretos naquilo que abomino: a radiografia da podridão humana. Mas, de forma mais rebuscada e sutil, e com igual intensidade, ainda me dão enorme prazer alguns livros de Machado de Assis, Lima Barreto, Dostoievski( o maior de todos), Franz Kafka, Graciliano Ramos, EdgarAllan Poe, Faulkner, Heminguay e o filósofo Nietzche. Quanto aos demais poetas, alguma coisa de todos aqueles de boas palavras.

Chalopa – Mas voltando para a poesia marginal, como ela se incorporou à cena literária recifense?

Francisco Espinhara – Nos finais dos anos 70, havia alguns grupos formados: o Bandavuô, Nós Atados, Poemar, Grupo do 2001, que viviam e produziam isoladamente e não usavam nenhuma nomeclatuar correlata à marginal( ou novos, undergrounds, periféricos, alternativos, subterrâneos, independentes). Andavam dispersos como os grupos atuais. Com o primeiro Encontro de Escritores Independentes, realizado em agosto de 1981, na Fundação Casa da Criança de Olinda, todos os grupos se congregaram em uma só voz para buscar mais alargamento na nossa malfadada cena literária. Daí em diante, foi uma avalanche de jornais, recitais, debates, concursos, rusgas e um certo respeito por aqueles jovens que não seguiam os métodos tradicionais da literatura, mas a levavam muito a sério.

Chalopa – Existe uma crítica corrente que hoje os novos poetas não gostam de ler, motivo pelo qual não evoluem em sua arte, exatamente por faltar-lhes o conhecimento necessário. Você concorda com essa corrente?

Francisco Espinhara – Concordo plenamente. A maioria desses poetas( nem sei se são poetas realmente, ou sei?) são analfabetos literários, não escrevem “coisa com coisa” nem dizem nada nos seus “maus escritos”, com raríssimas exceções. Eles gostam mesmo é dos recitais: gritam, pulam, fazem firulas, piruetas e poesia, que é bom, necas, ela, a poesia, a nossa dama bastrda, passa ao largo. Não vão chegar a lugar nenhum, vão ficar “temporariozinhos”. Não há tradução, eles simplesmente fazem trocadilhos, juntam palavras, põem-nas em fileiras e ficam muito orgulhosos com os elogios duvidosos dos falsos gurus, que deveriam tomar vergonha na cara e muita coragem para dizer: “rasguem, joguem fora, tentem outra coisa...”. Olhe que não estou falando da poesia tradicional, onde a burilação é mais complexa, estou falando de versos “livres, leves e soltos”.

Chalopa – Ezra Pound dizia existir três categorias de poemas: as que exploram a musicalidade da língua; as que lançam uma imagem, ou pintam um quadro, e as que brincam com o sentido das palavras no contexto em que elas são usadas. Qual dessas categorias é mais presente nos seus poemas?

Francisco Espinhara – Há muito que trabalho tais preceitos, sem que isso seja uma regra visceral. Atualmente deixei a poesia de “molho” e elaboro meus papéis em um sincretismo entre prosa e poesia: “proesia” talvez, no do poeta Jaci Bezerra.

Chalopa – E quanto à qualidade do que se faz hoje na literatura pernambucana. Você diria, no seu pessimismo biológico, que estamos à beira do precipício?

Francisco Espinhara – Bem, já falei sobre a maioria dos mais recentes poetas / escritores, não foi? Uma lástima, por sinal. Mas há que se ver que não estamos no precipício, temos excelentes poetas: Alberto da Cunha Melo( um dos melhores do país), Marcus Accioly, Jaci Bezerra, Ângelo Monteiro, Lucila Nogueira, Tereza Tenório, Arnaldo Tobias( anos 65); Eduardo Martins, Cida Pedrosa, Fátima Ferreira, Héctor Pellizi, Inaldo Cavalcanti, Cícero Melo, Pedro de Lara, Samuca, Erickson Luna, Dione Barreto, Celso Mesquita e Luiz Carlos Monteiro( anos 80); Marcos de Morais, Malungo, Bruno Candéas, Cecília Villanova, Chicão e uma das mais gratas surpresas, Fernando Chile( anos 90). Se alguns pouquíssimos não foram citados, não é que sejam simplórios, mas, no momento, esses que nomeei são os que fazem a literatura se mover, e bem. Quanto aos prosadores, temos três gigantes: Raimundo Carrero, Gilvan Lemos e o personalíssimo Fernando Monteiro.

Chalopa – Ítalo Calvino, referindo-se ao escritor James Perdy, dizia ser a boa literatura da América, a clandestina, de autores desconhecidos, e só por acaso alguns deles vinham à luz, rompendo o cerco da produção comercial. Calvino disse isso em 1959. É o que ocorre literatura marginal, não é mesmo?

Francisco Espinhara – Poderia citar Poe, Bukowski, Wittman, Augusto, Cruz e Souza, Lima Barreto, Sousândrade, etc... Mas vamos ficar na atualidade, veja-se o caso de Alberto da Cunha Melo, que não é umpoeta underground. Quanto aos alternativos dos anos 80, alguns, Samuca e Erickson Luna, se estivessem no Centro-Sul do país, onde “besteirinhas” são sucesso nacional, certamente estariam “consagrados”. Acho que o problema é regional e de contato com a grande mídia e com editores de renome, que hoje, no Sul, abraçaram a causa marginal comercialmente, ganhando em “espécie” e em qualidade. Em Pernambuco, temos ótimos autores, para dar e vender.

Chalopa – Além disso, existe também preconceito de parte da grande imprensa em não abrir espaço para os independentes. Por que você acha que isso ocorre?
Francisco Espinhara – Bem, vou colocar mais lenha na fogueira. Um “cara” como Orismar Rodrigues, colunista social, dar-se espaço, promove-se na sua própria coluna, joga confetes em si e nos sobrenomes seculares. Tudo fica ali mesmo, entre eles, na frescurinha dos ouros e na panelinha do chá das cinco. Os jornais já não são os mesmos, na década de 80 ainda havia um Cunha Melo, um Marco Pólo, um Mário Hélio( apesar de peçonhento). Hoje o que vemos é um desfile de release já prontos, enviados pelas editoras e transcritos pelos colunistas. Os articulistas parecem mais da Folha de São Paulo do que dos diários locais. Proponho um dia mensal para a queima desses jornais( uma pilha, uma tulha), em praça pública, para verse pelo menos eles se dão conta do grande fogaréu.

Chalopa – E quanto à prefeitura, o que você achou da iniciativa de publicar os poetas marginais do Recife, em três volumes, o segundo lançado recentemente?

Francisco Espinhara – Por lado péssimo, por outro, ótimo. Deveriam ter mais acuidade na seleção dos poetas e na revisão. Os organizadores pecam por não terem o domínio do contexto histórico, apesar de um ou outro ter participado do príncipio de tudo. Há também um certo nepotismo, apadrinhamento. Há poetas que deveriam ter “saído de cara”, pois, além de serem de boas palavras, deram o “sangue” para que esse projeto, hoje, viesse à tona. Por outro lado, não me contradizendo, é ótimo por incentivar os que estão iniciando( ainda que alguns muito mal) e por abrir um precedente no seio oficial. Há também a questão do registro histórico, imprescindível para que a literatura teórica tenha suporte crítico. No mais, parabéns.

Chalopa – Vamos agora voltar no tempo. Nos anos 80, os fanzines tinham uma linha editorial clara e definida ideologicamente. Hoje, eles reduziram o já minguado espaço e o interesse pela crítica cultural. Como você enxerga essa questão?

Francisco Espinhara - Acho que as “folhinhas” poderiam ser substituídas por verdadeiros jornais alternativos. Os nanicos surgiram para suprir uma lacuna que os grandes diários não quiseram acolher, posto serem reféns do poder, “bucha de canhão” das “igrejinhas” elitistas e não se dão, fogem, a temas polêmicos e a escritos fora dos padrões convencionais. Daí a necessidade, como nos anos 80, de termos fanzines em “alta voz” e não apenas “folhinhas egocêntricas” que repetem sempre os mesmos autores, quando não os editores, ou copiam, quase invariavelmente textos de outras “folhinhas” ou de alternativos mais robustos. A vaidade impera e há algo de “marocas” nas entrelinhas. Nos anos 80, havia uma série de jornais com linha editorial definida, clara e séria. Louvo as “folhinhas” pelo empenho em divulgar a literatura, mas os editores poderiam se esforçar mais, já que as dificuldades atuais são bem menores do que as da década de 80.

Chalopa – Por outro lado, os novos poetas rejeitam enfaticamente sua postura. Eles “presunçosos”, principalmente quando se arvora ao direito de arbitrar que é ou não poeta. Eles dizem também que você é muito injusto na opinião que emite. O que você tem a dizer sobre isso?

Francisco Espinhara – Não sou chato, sou chatíssimo, arrogante e presunçoso naquilo em que tenho certo domínio. Todo mundo quer elogios, então faça por onde merecê-los. Muitas vezes o poeta Alberto da Cunha Melo rasgou, em mesa de bar, alguns pápeis meus, ao invés de ficar chateado, aborrecido e muito ofendido, eu reconstruía o texto de outra forma ou, às vezes, nem reconstruía, jogava-o ao vento ou ao lixeiro. Eu era jovem e aquele gesto de Alberto foi minha melhor aula para persistência, paciência e laboração de um escrito. Sou chato, chatíssimo, mas tão chato que a todo momento eu quero me livrar de mim mesmo, quanto a ser injusto nas opiniões emitidas, mais tarde, se conseguirem superar os maus escritos e se eu ainda estiver vivo, dou a mão à palmatória e eles poderão dizer: “aí, seu filho da puta, somos grandes poetas...”

Chalopa – Para finalizar, a sua mensagem de otimismo para o ano que se inaugura?

Francisco Espinhara – O ano nem se inaugura nem se finda, o tempo é um só, constante, com suas intempéries a nos fustigar ininterruptamente. Não tenho nada e nada de esperanças, odeio a vida em si, o que me retém para tentar reconstruí-la de um modo material(“conforto e segurança”) é o meu filho Iago, caso contrário...

(Jornal Chalopa, Recife - PE, janeiro de 2004)

Escrito por Cicero Melo às 08:16 PM
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